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Literatura & Saúde / Sandro Lins

Quem é Sandro Lins? É médico pediatra, perito em trânsito, membro da ACALA (Academia Arapiraquense de Letras e Artes), ex-secretário de Saúde de Craíbas e gosta de dar opinião sobre tudo.
19/03/2017 23:54:40
A carne é fraca mas a corrupção é forte
o inferno - autor anônimo / Foto: internet

 Somente não comereis carne com a sua alma, com seu sangue. (Gênesis 9, 4) A essas palavras, os judeus começaram a discutir, dizendo: Como pode este homem dar-nos de comer a sua carne? (São João 6, 52)

A carne bem que podia ser free, mas não se sabe se é do boi, ou leva até papelão, como o big frango, Se é sadia não se sabe, pois na seara da operação carne fraca da polícia federal, o consumidor só perde, não ganha não. A Polícia Federal investiga a venda de carne adulterada no país, por 22 empresas suspeitas, e o consumidor foi surpreendido sabendo que grande parte da carne vendida no país é adulterada. Quando eu era criança, em Traipu, o medo de minha avó era comprar "maroba", como chamavam a carne do gado morto de idade ou doença, vendida como se fosse o gado da matança. Na verdade nunca ouvi dizer que alguém passou mal com carne vendida nos matadouros do interior de Alagoas. Mas existia confiança nas pessoas, minha avó não aceitava que eu fosse no açougue comprar de qualquer marchante, tinha que ser comprada de Garrangau, mas ele ja morreu. E em nossa região, parece que antes do consumidor morrer comendo carne estragada quem já está em estado terminal é a profissão de marchante e açougueiro. O escândalo do comércio de carnes é maior do que se imagina.


O que começa errado...
Já em 2013 o Ministério Público Federal no Amazonas, Mato Grosso e Rondônia, o Ibama, o Ministério Público do Trabalho e o Ministério Público no Estado do Amazonas e Rondônia processaram judicialmente 26 frigoríficos pela compra e comercialização de bois criados ilegalmente, às custas de devastação florestal, trabalho escravo e violação de direitos indígenas nesses três Estados. A identificação dos frigoríficos responsáveis pela comercialização de animais criados em fazendas irregulares no Amazonas (AM), Mato Grosso (MT) e Rondônia (RO) foi possível a partir do cruzamento de dados públicos – que registram a informação do local de origem do animal e o destino para o abate -, com as informações sobre a localização de fazendas dentro de terras indígenas, os embargos do Ibama por desmatamento ilegal e a relação das propriedades que estão na lista suja do trabalho escravo. Um dos frigoríficos citados foi a FRIGOVALE DO GUAPORÉ COM. E IND. DE CARNES LTDA, que teve que assinar um TAC – Termo de Ajuste de Conduta, com o Ministério Público do Mato Grosso em 14 de abril de 2014, através do seu sócio proprietário Alexandre Dermachi.

Foi bom para quem mesmo?

Exatamente um mês depois, em 14 de maio de 2014, o diário oficial publica o CONTRATO Nº 237/2014 celebrado entre o MUNICÍPIO DE ARAPIRACA e FRIGOVALE DO GUAPORÉ COM. E IND. DE CARNES LTDA, dando a concessão de uso e administração do espaço físico do imóvel Matadouro Público no município de Arapiraca e equipamentos já instalados, precedida de obras públicas, pelo prazo de 25 (vinte e cinco) anos. Um excelente negócio, segundo Marcelo Lima, presidente da Agência de Defesa e Inspeção Agropecuária de Alagoas (Adeal) na época, já que os dois frigoríficos certificados do estado abatem 9000 cabeças de gado por ano, e a Frigovale sozinha vai abater 10000. Com potencial de crescimento, pois são 30000 cabeças abatidas atualmente por ano em nosso estado. Além de pagar R$ 130,00 por cada animal abatido e mais R$ 42,00 pelas vísceras, a Cooperativa dos Açougueiros de Alagoas (Coopaal) acusa a empresa de desrespeitar diversas cláusulas contratuais e os acordos firmados com o Ministério Público Alguns marchantes tomaram a iniciativa de realizar o abate no frigorifico Mafripes em Rio Largo, distante de Arapiraca, 112 quilômetros. Uma dona de açougue em Campo Alegre diz que mesmo pagando R$ 600,oo por semana de frete, ainda sai muito mais em conta abater os animais em Rio Largo, que em Arapiraca. Mas como dizia minha avó, "as águas só correm para o mar", e em outubro de 2016, mês eleitoral, o governador Renan Filho isentou em decreto estadual empresas como a Frigovale, do pagamento do imposto ICMS.

Afinal, o ministério é público, ou privado?
Com apoio do Ministério Público Estadual dezenas de matadouros públicos foram fechados. Isto o sufocou toda a cadeia de produção, aumentando o número de abate ilegal da carne bovina. O que não é um problema só de Alagoas, em Pernanbuco 50% da carne abatida é clandestina, mesmo com 156 matadouros públicos, segundo a Agência de Defesa e Fiscalização Agropecuária (Adagro), Erivânia Carmelo, gerente geral da Adagro de Pernanbuco, fala: “Estamos implementando um programa de abate regionalizado, que terá a inspeção regular da Adagro. É um trabalho de interditar e também conversar com os municípios para que eles evitem a clandestinidade” Já em Alagoas, não teve acordo, simplesmente se fechou os matadouros públicos, Parece até que nenhum podia ser reformado, melhorado ou fiscalizado adequadamente. O antigo matadouro público de Arapiraca, após ter funcionado por 30 anos, foi demolido em março de 2016. A demolição do antigo matadouro atendeu a um Termo de Ajuste de Conduta da Prefeitura de Arapiraca com o Ministério Público. O novo matadouro custou quase dez milhões de reais de recursos públicos.


Só Deus mesmo!
E agora, como agradar minha mulher? Ela só aceita carne comprada no açougue, e não no supermercado, pois é congelada (sic). Mas se toda a carne posta a venda na frigovale é distribuida aos açougues congeladas? E o pior, os marchantes não podem presenciar o abatimento do animal na empresa que assumiu por 25 anos o matadouro de Arapiraca. Aguardemos a próxima etapa desta história: o fechamento dos açougues, e todos nós consumidores tendo que comprar carne na bandejinha do supermercado, Saudade do tempo de Garrangau, que escolhia sempre o melhor pedaço para a minha avó em Traipu. Talvez se estivesse vivo ele se assustasse em saber que o chefe do Ministério Público que mandou fechar quase todos os matadouros públicos, hoje é o prefeito da nossa cidade.

“Deus manda a carne e o diabo manda os cozinheiros.”
Thomas Deloney

 


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Sandro Lins
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