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12/01/2017 07:15
Brasil
Giselle Itié revela que foi estuprada aos 17 anos
Fui estuprada pelo último homem que eu poderia imaginar', conta a atriz em relato publicado na revista Glamour. Ela também pede para que as mulheres se unam contra a violência
/ Foto: Correio Braziliense

 "Quando tinha 17 anos, fui estuprada pelo último homem que eu poderia imaginar. Quando tinha 17 anos, o castelo caiu e fiquei soterrada." É assim que a atriz Giselle Itié começa a relatar a violência sofrida durante a adolescência. Em um texto publicado na revista Glamour e divulgado no site nesta terça-feira (10/1), ela revela que foi violentada por um ex-namorado 15 anos mais velho durante uma viagem com a família dele.

Ela conta que ele a "pressionou amavelmente" para fazer a viagem e propôs que eles dormissem numa casa separada dos outros e em quartos diferentes, mas que ele a visitaria durante a noite. " Quando ele apareceu na primeira noite, fiquei sem saber o que fazer", ela relata. "Em uma das noites, ele pegou pesado. Quando me dei conta, meu namorado foi substituído por um estranho ofegante que não queria me escutar. Implorei para ele sair de cima! Quando comecei a chorar, ele decidiu parar e saiu do quarto magoado."

O estupro ocorreu depois de uma noite em uma boate. Ela explica que pediu um suco e acredita que algo foi colocado em sua bebida enquanto ela ia ao banheiro. A suspeita é que tenha sido a droga conhecida como Boa noite Cinderela, devido ao comportamento do homem. "X me desejou boa-noite e me chamou de Cinderela. Acordei. Olhei para o lado e lá estava ele, dormindo. Olhei melhor e o vi nu. Susto. Me olhei. Nua. O chão forrado de garrafas vazias. Eu forrada de amnésia. Foi difícil sentar. Então vi o que eu já imaginava. Perdi a virgindade. Me perdi. Sem saber o que fazer, me tranquei no banheiro. Senti nojo de mim, vergonha, medo. O que aconteceu? Notei meu corpo machucado, roxo, mordido. Não conseguia pensar nem chorar. "

No relato, Giselle explica que tinha o desejo de casar virgem e que o homem parecia respeitar isso, mas que muitas vezes se incomodava. "A gente quase se esmagava de tanta paixão. Às vezes eu ficava assustada e pedia para parar. Às vezes ele parava e às vezes não. Às vezes eu era mais severa. Mas também entendia como era difícil para ele, mais velho, esperar o tempo da 'virgenzinha'." Ela também conta que o homem era ciumento e, algumas vezes, possessivo.

O texto começa como nos contos de fada, contextualiza a história de vida da atriz e ressalta a educação machista em que foi criada. "Era uma vez uma menina nascida em uma família amorosa, unida e machista: eu. (...) 'Feche as pernas, endireite as costas! Isso não é jeito de menina sentar'. Seguia essa educação, mas a questionava." O machismo da sociedade em que vivia também impediu que o pai tivesse conhecimento do ocorrido na época e podava as vontades dela de trabalhar como atriz. Mas ela resolveu correr atrás de seus sonhos após o ocorrido.

Giselle também aproveita para chamar atenção das mulheres a violências disfarçadas e diretas. Ela as convida a estarem unidas, seja em atos, grupos ou denúncias. "Todo movimento é importante para chegarmos mais perto do fim da desigualdade de gênero. Foi duro escrever este texto, mas isso me fortaleceu ainda mais", ressalta.

Leia o depoimento na íntegra:

"Era uma vez uma menina nascida em uma família amorosa, unida e machista: eu. Quando pequena, meus ídolos eram a Mafalda, a menina inconformada que levantou a bandeira da justiça, da paz e da igualdade, e o Hulk, o monstro humanoide que na sua essência queria paz e harmonia, ainda que de uma forma agressiva. Quanto mais bravo, mais forte ele ficava. Mas o tempo foi passando e, de Mafalda e Hulk, passei a gostar das princesas encantadas de Walt Disney, lindas com seus vestidos à espera do príncipe para o 'felizes para sempre'. Na minha época, não existia Frozen. Pena.

A educação machista foi me moldando: 'Menina de família não dança desse jeito!'; 'Feche as pernas, endireite as costas! Isso não é jeito de menina sentar'. Seguia essa educação, mas a questionava. Pedia para fazer teatro, mas ser atriz não era para uma mocinha de família como eu. Cheguei a morar no México com meus tios para estudar teatro sem que meus pais soubessem. Eu era uma princesa rebelde, mas minhas primas mexicanas me ensinavam a ser uma menina para casar: beijar o namorado só depois de sete meses juntos (oi?!). Imaginava como seria minha primeira vez: de branco, no colo do marido, o quarto cheio de flores e à luz de velas...
O galã e a virgenzinha

Quando tinha 17 anos, deixei de lado o sonho de ser atriz. Estava me preparando para entrar na faculdade de jornalismo e namorava um cara 15 anos mais velho. No início, meus pais surtaram, mas, com tempo, o X passou a fazer parte da família. Meu príncipe era um cara extrovertido, romântico, galã de comerciais. Em dois anos iríamos nos casar. Além disso, respeitava minha virgindade e minha vontade de casar assim.

A gente quase se esmagava de tanta paixão. Às vezes eu ficava assustada e pedia para parar. Às vezes ele parava e às vezes não. Às vezes eu era mais severa. Mas também entendia como era difícil para ele, mais velho, esperar o tempo da 'virgenzinha'. Uma noite estávamos em um restaurante, e um moço me chamou para ser modelo, me entregando seu cartão. Voltei à mesa, e X ficou bravo. Ele podia ser modelo, eu não... Falei que queria ser atriz e contei que o booker também me chamou para estudar TV e cinema na agência. Pois X levou a conversa para os meus pais com o intuito de me 'proteger do mal'. Estava cada vez mais possessivo e ciumento.

Até que um dia me chamou para viajar com a família dele. Disse que não aguentava mais ter um relacionamento com 'uma criança de 17 anos' e me pressionou 'amavelmente' para viajar com ele. Meus pais, infelizmente, me deixaram ir. Antes de viajar, minha mãe me orientou: 'Não coloque nenhuma gota de álcool na boca!'.

A 1ª viagem com ele

O sítio tinha três casas com vários dormitórios. X propôs que a gente dormisse em uma casa separada dos outros, cada um em um quarto. Mas ele disse que iria me visitar. Na hora de dormir, era uma sensação boa, coração batendo forte, sabe? Quando ele apareceu na primeira noite, fiquei sem saber o que fazer. E ele vinha com jeitinho, dizendo que eu era a mulher da vida dele... Era sufocante sentir vontade mas não estar à vontade. Decidir não querer é difícil, ainda mais quando você está com o 'amor da sua vida'.

Em uma das noites, ele pegou pesado. Quando me dei conta, meu namorado foi substituído por um estranho ofegante que não queria me escutar. Implorei para ele sair de cima! Quando comecei a chorar, ele decidiu parar e saiu do quarto magoado. Eu fiquei com uma mistura de alívio e culpa. No dia seguinte, X pediu desculpas, disse que me amava e garantiu que iria me respeitar.

Escureceu, e ele teve a ideia de irmos a uma boate. Eu, minha cunhada, todos falamos não, mas ele me convenceu. Chegando lá, lembrei da minha mãe e pedi um suco de laranja com bastante gelo no bar. Ele sorriu para mim. Pensei no quanto ele era lindo, dei um beijo nele e disse: 'Te amo e vou ao banheiro'. Fui. Voltei. Bebi. Fim. MENINAS, TOMEM CONTA DOS SEUS CO(R)POS!

E então o castelo caiu

Quando tinha 17 anos, fui estuprada pelo último homem que eu poderia imaginar. Quando tinha 17 anos, o castelo caiu e fiquei soterrada. X me desejou boa-noite e me chamou de Cinderela. Acordei. Olhei para o lado e lá estava ele, dormindo. Olhei melhor e o vi nu. Susto. Me olhei. Nua. O chão forrado de garrafas vazias. Eu forrada de amnésia. Foi difícil sentar. Então vi o que eu já imaginava. Perdi a virgindade. Me perdi.

Sem saber o que fazer, me tranquei no banheiro. Senti nojo de mim, vergonha, medo. O que aconteceu? Notei meu corpo machucado, roxo, mordido. Não conseguia pensar nem chorar. Só queria o abraço da minha mãe. Como zumbi, fui para o chuveiro e tentei me limpar, tirar a sensação de sujeira. Embaixo da água, me senti de alguma forma protegida. E chorei. Me dei conta de que não era pesadelo quando escutei o X batendo na porta. Num dado momento, me levantei aos prantos e exigi, do outro lado da porta: “Quero ir para a minha casa agora!”. Ele tentou dizer que não dava e entrei em surto. X concordou em me levar.

Total fênix

Em casa, contei tudo para minha mãe. Éramos duas mulheres chorando. Também vítima da sociedade machista, ela não sabia o que fazer. Se sentia culpada, teve medo de contar para meu pai, pois sabia que o mexicano iria atrás do X e a família Itié iria desmoronar. Por isso, decidiu não contar, e eu entendi. Mais tarde, ela foi atrás do X e bateu nele.

Eu? Eu me sentia oca. Sentia tanto quanto não sentia nada. Passei a me vestir com as roupas do meu pai (Freud explica), queria sumir.

Com a ajuda do tempo, da minha mãe e da terapia, comecei a me reencontrar. Decidi ligar para o booker da agência. Lembra? Fui fazer aula de TV e cinema, estudar jornalismo e trabalhar como modelo para pagar o curso. Tudo isso fez um baita barulho em casa, claro, mas eu não era mais aquela Giselle. Total fênix. A imagem das princesas encantadas foi engolida. Eu me sentia o Hulk e contestava tudo que achava injusto, como a Mafalda.

Precisamos nos unir

Hoje, tenho consciência de todas as situações violentas pelas quais passei simplesmente por ser mulher. E tudo veio à tona no ato Por Todas Elas, em junho passado, quando uma carioca foi violentada por 33 homens coniventes. Teve um jogral, no qual uma vítima narrava seu abuso e as demais repetiam frase por frase para que todos ouvissem. Aquilo, sim, foi um momento de redenção. Finalmente, percebi que não devia sentir vergonha, que a culpa nunca é da vítima.

Quando aconteceu o recente feminicídio na Argentina, e houve uma ato da organização Ni Una Menos, procurei informações no Brasil e não encontrei. Entrei em contato com organizadoras do Por Todas Elas e sugeri organizarmos o ato Ni Una Menos Brasil. E foi assim que essa nova fase da minha vida nasceu. Em 2 meses, já estava no Comitê de Combate à Violência Contra a Mulher do GMdB (Grupo Mulheres do Brasil), cocriei o coletivo Hermanas, escrevi e dirigi vídeos para chamar as mulheres para o ato do dia 25 de novembro, Dia Internacional da Não Violência Contra a Mulher, no ano passado.

Estamos (sobre)vivendo na cultura do estupro. A cada 12 segundos uma mulher sofre violência no Brasil. Ou seja, todo movimento é importante para chegarmos mais perto do fim da desigualdade de gênero. Foi duro escrever este texto, mas isso me fortaleceu ainda mais. Meninas, precisamos nos unir! Nosso futuro agradece".

 

Fonte: Correio Braziliense


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