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16/04/2018 16:44
Educação
Cartilha associa gordo a botijão é distribuída a crianças em escola de São Paulo
Cartilha foi distribuída em escola municipal em ação contra obesidade infantil. Especialistas questionam a maneira como o tema foi abordado. Pais reclamam que material reforça bullying contra as crianças. Prefeitura vai recolher material.
/ Foto: Reprodução
G1

 Uma cartilha com orientações sobre hábitos alimentares entregue para alunos de uma escola da rede municipal de São José dos Campos (SP) gerou polêmica . As mães reclamam da abordagem, considerada por elas preconceituosa e agressiva, ao tratar a obesidade infantil como um pesadelo. No material, uma história em quadrinhos traz personagens acima do peso que se comparam a um botijão e com medo de olhar no espelho. 

A cartilha ‘A Fantástica Magia dos Alimentos - informações para uma alimentação saudável’ foi entregue aos alunos do 4º ano da escola municipal Maria de Melo, no Parque Industrial, na última sexta-feira (13). O material faz parte de um projeto desenvolvido na escola, na aula de educação física, para estimular a alimentação saudável e o combate ao sedentarismo.

No quadrinho, a personagem Alice sonha que está em um mundo rodeada pelas tentações das guloseimas e, quando engorda, tenta fugir. Na tirinha, ao se ver no espelho, Alice, não se reconhece e o espelho pede que ela 'não se assuste' com a imagem refletida. Ao tentar correr, ela ainda questiona se, por estar gorda, vai conseguir passa pela porta. Em outro trecho, a personagem diz pra si que precisa ser rápida para executar uma ação, mas não consegue por estar 'tão pesada'.

As mães reclamam da forma como a publicação tratou o tema obesidade. Para elas, o texto impõe às crianças medo da alimentação, distorção de imagem e reforça preconceitos como o que associa que pessoas acima do peso são devagares e roncam. Especialistas concordam. (leia mais abaixo)

Patrícia Teles é mãe de um menino de 9 anos. O filho dela recebeu a cartilha e questionou o personagem se chamar de botijão. Ela contou que o filho é obeso, faz tratamento e que ela defende o combate aos preconceitos que o material destaca.

“Eu não quero que ele se veja assim. Ele tem alimentação saudável, pratica esporte e é uma criança normal e ativa. Tento mostrar que o corpo não é um problema e que ele ser saudável é o que importa. Faço isso em casa e aí ele chega a escola com um discurso completamente diferente? Isso estimula o bullying em sala”, avaliou.

Lilian Braz é mãe de uma menina de 9 anos que também recebeu o material. A mãe conta que é obesa e se sentiu ofendida com a publicação. “Eu sou mãe de menina e sei que existe uma pressão sobre a imagem das mulheres. Sendo uma mãe acima do peso eu trabalho para que minha filha não tenha medo da imagem, da comida. Isso foi um choque para nós”, disse.

No site da editora responsável pelo conteúdo do material, o material é descrito como ideal para crianças a partir dos seis anos. A publicação é descrita como 'uma divertida história em quadrinhos que vai possibilitar às crianças uma viagem pelo mundo da fantasia e conhecer hábitos alimentares prejudiciais à saúde'. A editora ainda diz que há no material os dez passos para não deixar que a magia dos alimentos se transforme em um 'monstro'.

Outro lado
A reportagem do G1 questionou a editora sobre o conteúdo da cartilha e aguardava o retorno até a publicação. O dono da editora Alexandre Carlos disse apenas, por telefone, preliminarmente, que a obra foi mal interpretada e que tentou entrar 'dentro do imaginário da criança' para mostrar a crueldade que é a obesidade infantil.

A Secretaria de Educação e Cidadania de São José dos Campos informou em nota que essa cartilha foi feita pela gestão passada e foi distribuída por uma professora na escola. "A Secretaria reconhece e agradece as observações feitas pelos pais e informa que já determinou que todos os materiais sejam recolhidos", concluiu a nota

A gestão passada negou que a cartilha teria sido adquirida pelo governo Carlinhos Almeida. "A cartilha 'A Fantástica Magia dos Alimentos', não foi e nunca seria adquirida pelo governo Carlinhos Almeida por não atender a política pedagógica defendida pelo PT", informou por nota.

"Muito nos espanta o governo Felicio, além de transferir a responsabilidade de sua administração, não saber dos atos de seu próprio governo", complementou.

Análise

Para especialistas consultados pelo G1, a abordagem do material, que relaciona a imagem corporal à saúde, é contrária ao objetivo que é criar nas crianças bons hábitos alimentares. Para a psicóloga especialista em transtornos da autoimagem, Viviane Mendonça, a personagem percebe um problema quando vê os amigos e a si própria como gorda e não porque há problemas na saúde.

“Ela não estava doente, o primeiro sintoma foi não estar com o corpo no padrão. Em seguida, ela se assusta com a sua imagem no espelho. Isso é um choque para a criança, já que é na infância que começamos a lutar contra o padrão social para o corpo e preconceitos com a imagem corporal do outro. O que esse material faz é terrorismo com o corpo”, defendeu a especialista.

Ela ainda questiona a escolha do material para ser tratado em sala de aula, com o risco de criar situações de buillying.

Para a nutricionista Pâmela Terra a alimentação saudável não pode ser baseada no terrorismo com o paladar infantil. Em um dos trechos, a cartilha dá exemplos de alimentos, com informações sobre o número de calorias e quanto é preciso 'correr' para gastar o acumulado com o alimento.

“O que precisamos é treinar o paladar da criança para o saudável, mas não esquecer que ela é criança e que existem alimentos dessa fase. Não colocar na criança o medo de comer, contando calorias. Isso é um risco para desenvolver transtornos alimentares. A alimentação saudável não está atrelada à imagem corporal, que é individual”, concluiu.

 


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