OUÇA AO VIVO A 96FM
(82) 9-9672-7222 Whatsapp Diário Arapiraca
Dólar hoje R$ 3,308 Arapiraca, 22ºC Parcialmente nublado

Click Due / Lourdes Rizzatto

Quem é Lourdes Rizzatto? Jornalista e fotógrafa.
10/07/2015 08:48:19
Livre para voar
/ Foto: Lourdes Rizzatto

É com grande satisfação que inicio esta parceria com o Diário de Arapiraca. Com ela, um projeto antigo que ficou adormecido durante alguns anos e que agora desperta para revelar, em forma de crônicas, o olhar de uma jornalista fotógrafa que está a procura de compartilhar emoções, pontos de vista, de provocar questionamentos, de buscar o diferencial no comum ou de simplesmente sonhar, devanear.

Despida de qualquer pretensão de colocar minhas ideias como certas ou erradas uso este espaço de forma livre e democrática para me mostrar, revelar um pouco de mim através dos meus textos, das minhas lentes e do meu amor pela profissão que escolhi, e do prazer que sinto em ser livre para fazer o que amo.

E, como toda liberdade é também um voo rumo à construção de experiências únicas e pessoais, podendo esta serem compartilhadas ou não, nada melhor do que minha primeira crônica trazer o relato de um momento particularmente especial, tanto para mim como para meu esposo e companheiro de todas as horas, Silvestre Rizzatto.

Espero, verdadeiramente, que esta postagem traga mais do que um texto de gênero híbrido que se caracteriza por relatar de maneira ordenada e detalhada fatos e acontecimentos, como se propõe uma crônica, espero que ele conduza você, meu caro e precioso leitor, à emoção de encontrar a essência de quem se propõe estar “livre para voar”.

LIVRE PARA VOAR

Entrei na sala de aula do Centro de Formação de Bombeiros Salvar e me dirigi para a última cadeira da primeira fila. De lá observava Silvestre e os outros que, assim como ele, estavam fazendo o curso de paraquedismo para salto livre. A única coisa que tinha em mente era a dúvida de como dois dias de aulas teóricas iriam garantir que meu marido sobrevivesse a um salto solitário a mais de quatro mil pés, ou melhor, trocando em miúdos, literalmente se jogar a mais de um quilômetro e meio de altura.

A máquina fotográfica, minha eterna companheira, neste momento serviu como escudo de proteção para disfarçar minha apreensão à total falta de conhecimento sobre o assunto, e através das lentes passei a registrar e observar a figura feminina segura, delicada e extremamente exigente que estava diante de empresários, bombeiros civis e profissionais liberais que se propunham a voar, ou como diz a instrutora Ruth Trindade, “a saltar”.

A cada informação sobre o equipamento, objeto de desejo daqueles homens, via no rosto de cada um o brilho no olhar que tanto se faz presente sem pudor no rosto de toda criança feliz. Silvestre, naquele momento, estava feliz, e eu também me vi feliz por registrar, mas principalmente, por fazer parte daquele momento tão sonhado por ele.

Ao clicar Silvestre vestindo o paraquedas, vi um menino recebendo doses homeopáticas de sonhos e pude perceber que o homem diante de mim sabia verdadeiramente o quanto vale viver cada etapa de um desejo que se realiza. Mas, logo em seguida, como num passe de mágica, vi a beleza, literalmente, desabrochar de dentro de uma mochila e o que era até então um objeto sem maiores encantos passou a ter cor, forma e se tornou pura magia.

O belo e complexo emaranhado de fios, tecidos e tecnologia aerodinâmica, revelou a obra que outrora projetada por Leonardo da Vinci ganhara engenhosidade e precisão para tornar-se instrumento de desejo para o sonho de voar como os pássaros. Diante daquela cena do paraquedas aberto, meu mergulho, ou devaneio poético, durou apenas alguns segundos porque fui chamada à razão pela instrutora Ruth Trindade ao perceber seu foco na técnica e sua determinação em transformar seus alunos em paraquedistas seguros.

A teoria sobre o voo e seu caráter técnico aos poucos foi oferecendo mais confiança aos alunos e, de certa forma, acalmando meu coração. Mas, o descompasso voltou a habitar minha alma e minha mente quando enfim chegou a hora de conhecer o local do pouso. Agora a sala de aula era o Aeroporto de Arapiraca, sábado de manhã, dia 27 de junho.

Orientações sobre o vento e a importância da “biruta”, treino no avião em solo, contato com paraquedistas atletas profissionais da Escola de Paraquedismo Vertical Speed, e muita adrenalina sem mesmo sair do chão, foi o roteiro para o grupo de alunos que tiveram uma dose extra de reforço no fator psicológico para levantar a autoestima e autoconfiança para o salto no domingo (28).

O dia tão aguardado chega e com ele um céu entre nuvens. O show de saltos de paraquedistas profissionais torna o Aeroporto de Arapiraca o palco de um espetáculo ímpar. Os saltos duplos oferecidos sem a necessidade de treinamento dá aos visitantes a possibilidade de sentir a “adrenalina a mil” por alguns minutos.

Os alunos da Vertical Speed vestidos em seus macacões de paraquedistas aguardando para realizar o primeiro salto tornam-se alvo da admiração da plateia que vibra ao simples fato de colocar os olhos sobre aquelas vestes imponentes que revelam “quão” heroico pode ser o homem que tem a coragem de voar.

Em meio a tantos heróis está o meu herói, o meu amor, que embarcou nesta viagem em busca de realizar um dos três sonhos de juventude (saltar solo de paraquedas, andar de balão e voar de asa delta). E, ao vê-lo pronto para o salto, me dou conta que a idade certa para se fazer o que quer é aquela que você quiser.
Aos cinquenta e oito anos de idade vejo Silvestre se permitir viver a liberdade do arriscar-se, de acreditar no seu potencial, na sua força interior, no autocontrole, e mergulhar em um salto consciente rumo à realização pessoal.

Enquanto Silvestre aguardava a sua hora, eu tentava driblar a ansiedade clicando os pontos coloridos que desciam do céu e pousavam entre aplausos e, sem perceber, passei a ser tomada por uma sensação mista de contemplação e vibração a cada chegada dos saltos duplos, mas confesso que senti o coração bater mais forte quando focalizei o primeiro aluno saltando sozinho, deslizando pelo céu e comprovando que é possível se conectar com o universo de forma sublime.

Leonardo foi perfeito na navegação sob os comandos repassados através do rádio pela instrutora Ruth Trindade, e com um pouso perfeito deu ao meu coração a tranquilidade que necessitava para conseguir registrar o salto de Silvestre, mas como se o destino tivesse sido caprichoso as nuvens que outrora disseram “adeus” para permitir o dia festivo agora retornariam para, literalmente, acabar com a festa dos alunos que aguardavam saltar.

A falta de visibilidade devido às nuvens baixas ocasionou a suspensão dos saltos em nome da segurança dos alunos. Na prática, isso significou mais uma semana de espera até que o tempo permitisse nova invasão dos céus arapiraquenses e sem demora o momento chegou. Domingo, 05 de julho, o dia abre com céu límpido após manhã com chuva leve e os alunos, ávidos por saltar, finalmente embarcam na odisseia que os levará as alturas.

Quando comecei a registrar a caminhada de Silvestre até o avião e a sua felicidade ao receber as instruções do paraquedista campeão brasileiro e sul americano Marcelo Ricci, tive a sensação de que tudo foi preparado por Deus para que “aquele” fosse o primeiro salto do Silvestre. A tarde estava linda, eu mais tranquila do que poderia imaginar, e meu marido pronto para realizar seu sonho.

Quando consegui focalizá-lo durante o salto solo fui tomada por uma sensação de orgulho por ter ao meu lado um homem corajoso que, literalmente, se jogou, vencendo medos em busca de seus sonhos. Agradeci a Deus por colocá-lo em minha vida e pedi mais uma vez para protegê-lo e que o trouxesse em segurança para mim.

Minha oração foi verdadeiramente invadida sem nenhuma cerimônia por Celine Dion, em sua melhor interpretação no bom e famoso estilo “Titanic”, o que como num relâmpago me fez desmoronar e, entre os olhos encharcados de lágrimas e a busca do foco na descida de Silvestre, eu me perguntava quem teria sido o “filho da mãe” que resolveu colocar em alto e bom som aquele repertório infame, ou de presságio, ou de ... coisa nenhuma!

Tentei voltar o foco só para Silvestre, focar e clicar seu salto passou a ser o meu único objetivo. Limpei a mente de pensamentos negativos e reencontrei meu navegador que se distanciava das marcações. Sabia disso porque eu estava próxima da instrutora Ruth Trindade e a ouvi repassando orientações para Silvestre pelo rádio. Após a rota reestabelecida pude me tranquilizar e apreciar seu pouso lindo e seguro.

A maior lição que tirei dessa experiência é que só livres podemos voar..., seja no trabalho, no amor, no sonho ou no devaneio. O primeiro passo para que isso aconteça é você saber reconhecer o seu estado de liberdade e a força dessa vibração no seu “eu” interior.


Link da página:
O portal Diário Arapiraca não se responsabiliza pelos conteúdos publicados nos blogs dos seus colaboradores.

Utilize o formulário abaixo para enviar ao amigo.

Lourdes Rizzatto