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Literatura & Saúde / Sandro Lins

Quem é Sandro Lins? É médico pediatra, perito em trânsito, membro da ACALA (Academia Arapiraquense de Letras e Artes), ex-secretário de Saúde de Craíbas e gosta de dar opinião sobre tudo.
29/03/2017 10:23:34
Pobre Rio,coitadinho do Velho Chico
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 Onde o rio chegar, todos os animais que ali se movem poderão viver. Haverá peixes em quantidade, pois ali desembocam as águas que trazem saúde; e haverá vida onde chegar o rio. Nas margens junto ao rio, de ambos os lados, crescerá toda espécie de árvores frutíferas; suas folhas não murcharão e seus frutos jamais se acabarão: cada mês darão novos frutos, pois as águas que banham as árvores saem do santuário. Seus frutos servirão de alimento e suas folhas serão remédio”. (Ezequiel 47,9.12 )


O rio faz parte da minha história, talvez por ser o limite do meu mundo, o abismo onde tudo termina, e do outro lado só a serra majestosa, a Tabanga. Só já velho descobri que do outro lado da Tabanga havia gente, e outras terras, e outros caminhos, Só já adolescente descobri que do outro lado do rio era Sergipe. Eu criança ainda trago comigo a visão das croas, do sacão com sua porta dágua e a sua lagoa cheia de mulheres plantando arroz. Aquela sensação de que se estivesse com aquelas arrpzeiras sertanejas estaria com medo das piranhas que quando em vez mordiam algum desavisado. Com o rio não se brinca, dizia minha avó Gedalva, e falava de meu pai salvo literlamente pelos fios de cabelos, puxado da morte por um pescador. Talvez o medo maior da minha avó fosse só os carros que desciam as pequenas ladeiras de Traipu, a gente perto do casarão de Berilo Mota, onde a história viu o pouso e o repouso de um imperador, apreciavamos as canoas de tolda no pôr do sol, vindo na curva da foz da Ribeira, procedentes de Gararu. Me desculpe o leitor, mas as águas que hoje faltam no velho Chico, abundam e tranbordam em meus olhos, marejam porque o São Francisco é um mar de sensações, e um amor que só quem pegou uma lancha, seja para o Muguengue, seja para Propriá, para o caminho onde se quiser chegar, saberá.


Oh minha vozinha, que herança darei a meus netos? Se o mar vai virar sertão? Como explicar para eles a maldade da minha geração? Que mais de seicentas cidades jogam esgotos no curso do Velho Chico? Que o arroz agora vem de fora, e o surubim majestoso e belo, por aqui não mais se viu, e a energia do nordeste, as candeias que prendem eternamente o ribeirinho ao seu coração, foram quebradas, por desamor, corrupção, e ambições tais feitas em segredos incofessáveis. E agora, como olhar no espelho e perceber que nada fiz para salvar meu rio. Batizado em homenagem ao santo querido do rei de portugal, o rio da união nacional de nós precisa, e juntos mais fortes seremos. Quero enterrar meu coração na curva do rio, e não ir ao funeral de quem nos deu a vida, Pobrezinho do meu rio, aí dos pobres ribeirinhos, hoje pescam nas águas as lembranças das canoinhas, pobres criancinhas, não vão brincar como eu brinquei, no meu mar doce que secou...


Sou homem, depois desse falimento? Sou o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte, peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio. ( Guimarães Rosa )


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Sandro Lins