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07/06/2021 06:00
Brasil
Ligações camufladas desafiam atendentes do 190 no socorro a vítimas no Brasil
Por medo dos agressores, mulheres disfarçam pedido de ajuda. Situação exige técnica e sensibilidade dos atendentes da PM
Convívio com agressores força mulheres a disfarçar pedidos de socorro à PM / Foto: PIXABAY

 Os recentes episódios de mulheres que precisaram camuflar pedidos de socorro para escapar de agressões dentro das suas casas, registrados em várias cidades e diferentes regiões do Brasil, jogou luz sob a atuação dos atendentes dos serviços de emergência, em especial o 190 da Polícia Militar. A avaliação daquilo que é uma emergência real, um trote ou até mesmo uma emboscada sempre é feita com pouquíssimo tempo e informações.

No dia 26 de maio, uma moradora de Andradina (SP) fingiu pedir uma pizza para alertar sobre as agressões do marido. O policial militar que estava do outro lado da linha percebeu a real intenção da chamada e enviou uma viatura para o local — o homem conseguiu escapar, mas antes teria feito várias ameaças à vítima e aos filhos dela.

Ao ouvir o pedido estranho, o soldado informou que aquele era um telefone de emergência policial. Mas, ao invés de definir a chamada como um trote, o agente cumpriu um procedimento ensinado em cursos preparatórios para os atendentes que trabalham no Copom (Centro de Operações da Polícia Militar do Estado de São Paulo).

O coronel da reserva Marcello Streifinger, que comandou o Copom-SP (capital e Grande São Paulo) entre maio de 2017 e janeiro de 2020, explicou que os homens e mulheres destacados para a função devem estar em alerta para interpretar situações de risco — e até armadilhas — ocultas durante um atendimento.

"Pode ser trote com um fim 'sarrista' ou interesse real de marginais que acionam a polícia para saber quanto tempo leva [uma viatura] para chegar naquele ponto. Pode ser tocaia ou um pedido de socorro camuflado", ponderou o coronel aposentado, que também comandou o 3º Batalhão de Policiamento de Choque e o CPAM-9 (9º Comando de Policiamento de Área Metropolitano) durante os 34 anos de carreira na PM.

"Com 30 mil ligações diárias, em média, acontece de tudo. Lá, a gente conhece um universo novo. Porque conhecemos a ocorrência do lado de lá, no atendimento. É muito gratificante. Fiquei algumas vezes sentado do lado do atendente, simplesmente ouvindo. Amadureci como profissional e ser humano", avaliou Streifinger.

Características dos atendentes

O coronel da reserva Marcello Streifinger enfatiza que os agentes precisam desenvolver algumas habilidades específicas para ter condições de assumir o posto. Inteligência, sensibilidade, versatilidade e resiliência são alguns dos elementos fundamentais para exercer o ofício.

"Ele atende mais que do '8 ao 80', mas o '8 e o 800'. Tem que ter o mesmo atendimento. Percepção comportamental para avaliar a pessoa que está do outro lado, e saber se é encenação ou verdadeiro. E não pode desconsiderar que a pessoa do lado de lá esteja com a tecla do som ambiente acionada e precise proteger a pessoa com quem está falando".

Treinamento

Streifinger conta que os atendentes da central 190 responsável por São Paulo e as cidades da região metropolitana são profissionais mesclados entre policiais militares e funcionários civis — que anteriormente atuavam em telemarketing—, contratados por licitação.

Todos são submetidos a cursos preparatórios que duram entre quatro a seis semanas antes de iniciar o contato com a população. "Esse curso basicamente cuida da parte técnica e operacional. A parte operacional é calcada nisso. Todas as ligações [do Copom] são gravadas. Tudo o que foge da normalidade temos registro", completou.

Programas de apoio à vítima de violência doméstica
O ex-comandante do Copom-SP avalia que as ligações camufladas não representam uma parcela grande dos atendimentos, mas frisa que os casos de violência doméstica tiveram um tratamento especial por parte da segurança pública do estado, especialmente nos últimos anos, com a criação do SOS Mulher — plataforma, disponível em aplicativo, que permite às vítimas de violência doméstica pedir ajuda por meio de um botão do celular.

No entanto, Streifinger demonstrou certa frustração pela baixa adesão ao programa, lançado inicialmente pelo governo do estado, em 2019, e aprimorado pela Polícia Militar, pelo qual a mulher aciona a viatura mais próxima de onde estiver com o uso de um dispositivo de pânico.

"Achamos que seria um sucesso. No fim das contas, menos de 10% das mulheres com medidas protetivas baixaram o aplicativo. Foi uma decepção. É um trabalho grande, projeto custo zero, porque foi feito pelos próprios PMs, e de alcance grande para pessoas em situação de risco", finalizou o coronel da reserva, que também ressaltou a credibilidade da instituição com a população. "Na necessidade, ela lembra da PM".

Simplicidade é fundamental

A jornalista Marília Taufic, idealizadora do aplicativo PenhaS, lançado em março de 2019 e que, atualmente, possui mais de 2 mil mulheres cadastradas, entende que as vítimas têm receio de buscar auxílio de órgãos oficiais de acolhimento.

A constatação é baseada em pesquisa que ouviu cerca de 400 mulheres e homens de todo o Brasil, realizada no ano passado pelo aplicativo, segundo a qual nove em cada dez mulheres revelaram não confiar plenamente nos canais disponibilizados pelas autoridades do estado.

"É muito representativo [o resultado da enquete] sobre essa real dificuldade de acionar a polícia e o sistema de justiça, e não ser bem atendida. Além do fato de muitas não quererem que o agressor vá preso, mas apenas que a violência cesse. A gente fez o PenhaS dentro dessa abordagens", afirmou.

O resultado da pesquisa também estimulou os responsáveis pelo app a atualizá-lo com ferramentas que facilitem o acesso e garantam o anonimato das vítimas, reforçou a jornalista e idealizadora do PenhaS.

"Todas essas conversas que acontecem ali dentro [ocorrem] de maneira sigilosa e direta. Existe um mural onde [as mulheres] podem contar o caso delas e as pessoas comentam. [Foi criado em] formato de grupo fechado de Facebook. E elas também podem falar com a nossa equipe. Isso é sempre [feito] de maneira anônima".

Marília Taufic acrescenta que outro fator responsável por desestimular a procura por ajuda em plataformas digitais — caso do SOS Mulher — é a questão tecnológica. Para ela, a ferramenta disponibilizada para socorrer mulheres em situação de perigo dentro do lar deve oferecer dispositivos de manejo mais simples.

"Não vou avaliar se o app é bom ou não. É preciso entender que necessitamos de ferramentas extremamente simples e seguras para essas mulheres pedirem ajuda. Como é o ícone do app no celular dela? Qual é o nome que aparece ali? Se é um ícone muito claro para a mulher pedir ajuda. Talvez, aquilo não faça com que ela se sinta segura para instalar no celular", pontuou.

Para exemplificar, a jornalista cita algumas situações corriqueiras que as mulheres enfrentam em casa. Nem sempre é possível manter a discrição no manuseio do próprio celular no convívio diário com a família, lembra Marília Taufic.

"Muitas mulheres compartilham o celular com os filhos. Muitas sofrem de violência patrimonial, que é o uso do celular pelos próprios companheiros. É preciso que a ferramenta seja algo que atenda todas essas necessidades de uma mulher vítima de violência. Muito dentro dessa lógica, a gente tenta fazer com que o PenhaS se aprimore cada vez mais", acrescentou.

O aplicativo desenvolvido pelo Instituto AzMina — que busca combater a violência de gênero com o uso da informação, tecnologia e educação, conforme destaca em sua página na internet — procura oferecer a autonomia necessária para a mulher escolher como sair de um relacionamento abusivo.

"Ela tem dificuldades por vários motivos. Um deles é essa abordagem. Ela está do lado do agressor e não tem acesso a essas ferramentas para pedir ajuda. Ao trabalhar com informação [promover o acolhimento], você está fazendo com que ela compreenda a violência, entenda os direitos e conheça os caminhos para sair", completou Marília.

Botão de pânico

A jornalista explica que o aplicativo também funciona com um botão de pânico que comporta o cadastro de até cinco pessoas de extrema confiança da vítimas, chamados de guardiões. Esses contatos serão acionados em uma situação de emergência.

"Os guardiões são acionados via SMS, não precisam ter baixado o app. A ideia é dar possibilidade de chamar quem ela confia, caso não queira chamar a policia ou acredita que não seja o caso. Em casos de extremo perigo, a gente indica que ela ligue 190 e tem até um botão para isso", acrescentou.

Mais que um caso de polícia, uma questão social
Marília Taufic ressalta que grande parte vítimas de violência doméstica depende dos abusadores, seja financeira ou emocionalmente. "Elas têm vergonha de se separar, existe dependência financeira, vínculo amoroso. O abusador não é 100% do tempo abusador".

Por isso, o problema não pode ser tratado apenas como uma questão de segurança pública, mas sim como uma crise social. "Qualquer proposta eficiente precisa ouvir as vítimas."

Subnotificação dos casos

Outro ponto abordado pela jornalista — que afeta a confiabilidade das vítimas em relação aos órgãos oficiais — é a subnotificação dos casos de violência doméstica no país.

Um estudo realizado por pesquisadoras da UFABC (Universidade Federal do ABC) e integrantes da RBMC (Rede Brasileira de Mulheres Cientistas) revelou que a subnotificação aumentou durante a pandemia do novo coronavírus.

De acordo com as pesquisadoras, em artigo divulgado pela Agência Bori, houve aumento de 1,9% dos feminicídios e de medidas protetivas em muitas delegacias e a diminuição de 9,9% de registros policiais de casos de violência contra a mulher, em relação a 2019.

O aumento do feminicídio e das concessões de medidas protetivas são fortes indicadores da não comunicação prévia das agressões. As estatísticas também mostram a importância dos serviços de proteção à mulher, descontinuados na pandemia, que poderiam interromper o ciclo da violência.

"Quando trata de violência contra a mulher, a gente fala muito sobre o elevado número de subnotificações e milhares de motivos. Por isso, essas mulheres precisam ter ferramentas não só de segurança pública, mas sociais e de assistência para que decidam como sair de um relacionamento abusivo", reafirmou a jornalista Marília Taufic.

Na mesma linha de pensamento, a advogada especializada em direitos da Mulher Mariana Tripode ressalta a importância de o poder público promover redes de acolhimento e apoio às vítimas, seja em órgãos de atendimento médico ou policial. Ela também pede mais medidas de estímulo para que as famílias dessas mulheres também estejam preparadas para o acolhimento, evitando julgamentos e acusações que fragilizam ainda mais quem já vive uma rotina de abusos.

"O silenciamento das mulheres é algo com que o agressor sempre trabalha. A subnotificação é fruto desse silêncio, por medo da reação do agressor, a vítima se cala e não denuncia nem compartilha com ninguém o que está passando, iniciando uma espécie de bola de neve que culmina em feminicídios", concluiu.

Mariana Tripode lembra ainda que, em tempos de pandemia, quando parte da população faz isolamento na medida do possível, tem sido comum que vítimas e agressores convivam por mais tempo juntos.

"Isso faz com que a mulher tenha dificuldade em denunciar seus agressores, pois ele está próximo dela o tempo todo. Uma tática para driblar essa perseguição é criar um código com uma pessoa de extrema confiança, uma amiga ou familiar próximo, que quando for citado numa mensagem de texto ou ligação a pessoa já saiba que a outra está em perigo, como por exemplo o empréstimo de um livro, um pedido de pizza, como ocorreu recentemente, ou uma frase qualquer previamente combinada", complementou a advogada.

Fonte: R7


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