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15/10/2020 08:44
Brasil
Professor premiado exalta a importância do erro para os alunos
André recebeu o Prêmio Educador Nota 10 por um projeto de física para o ensino médio
Professor premiado exalta a importância do erro para os alunos / Foto: Reprodução

 Foi em meio a uma incursão no Centro Europeu de Pesquisas Nucleares (Cern), na Suíça, que André Barcellos, 31 anos, teve uma espécie de clique, um momento que os gregos clássicos chamaram de "eureca".

Ele, professor de física do ensino médio em Brasília, doutorando da UnB, havia sido selecionado para um programa de formação de docentes que incluía a visita pelo local do Grande Colisor de Hádrons, que analisa as partículas mais elementares que formam nossa realidade.

Neste 15 de outubro, o G1 mostra 5 histórias sobre a vida de professor no Brasil. Confira as outras ao longo desse texto.

Em meio a testes e computadores, Barcellos percebeu como as teorias eram colocadas à prova.

"Havia duas telas: uma com resultados teóricos e outra com previsões. Na medida em que os resultados iam ganhando relevância estatística, as previsões iam sendo cortadas. São dois, três anos de trabalho indo por água abaixo", descreve Barcellos. Mas é parte do processo.

"Isso me fez pensar: o cientista precisa poder errar para a ciência se desenvolver. A ciência dá saltos em erros, como a descoberta do rádio e da penicilina, que vieram de acasos. Pensa na qualidade deste erro. Agora transporta isso para a sala de aula."

Investigar é fundamental

Nasceu ali a força-motriz para o projeto "Óptica com Ciência", que surgiu antes da pandemia e rendeu a ele o prêmio Educador Nota 10 na edição de 2020 -- todos os anos, 10 educadores são premiados por desenvolverem ações inovadoras nas escolas.

Barcellos montou tubos de PVC pintados de preto, com furos laterais de onde saem cordas amarradas internamente. Só é possível inferir a ligação entre elas ao puxar a corda de um lado ou de outro.

"Você só vê a causa e o efeito, nunca sabe o mecanismo. Uso isso de metáfora científica. A gente nunca sabe com certeza os mecanismos que regem os fenômenos naturais. O que a gente sabe é a causa e a consequência. Ao imaginar como estão as cordas lá dentro, os alunos estão fazendo o método de investigação. Foi bonito de ver o quanto essas atividades foram capazes de instigar a curiosidade nos alunos."

Para Barcellos, o ensino da ciência nas escolas é primordial para a sociedade. "A ciência faz parte do que significa ser cidadão no século 21", afirma.

Na mais recente avaliação internacional de estudantes, o Pisa, o Brasil caiu 3 posições no ranking mundial na aprendizagem em ciência, ficando entre o 66º e 85º lugares (os resultados são apresentados por faixas de evolução).

O Brasil somou 404 pontos, enquanto a média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é 489. Líderes do ranking, três províncias da China somaram 590 pontos em ciência (regiões chinesas são analisadas separadamente).

Ainda há muito a ser feito, declara Barcellos.

"É flagrante, diante das posições negacionistas [do aquecimento global] e da proliferação das fake news, que o projeto de ensino de ciência nas escolas falhou. Porque a principal contribuição que a ciência pode dar é uma posição cética em relação a um acontecimento, é ensinar a dúvida e a curiosidade de ir mais a fundo", defende.

'Instigar o pensamento crítico'

Em sua visão, ensinar não é dar a resposta, apontar erros ou punir os alunos. Mas sim instigar o pensamento crítico.

"Trouxe tudo que vi de melhor do mundo em ciência e educação para dentro da minha sala de aula", descreve Barcellos.

Antes do Cern na Suíça, ele já havia feito outras incursões no Fermilab, laboratório de física de partículas nos EUA, e no Instituto Perimeter, de física teórica, no Canadá. Algumas viagens foram pagas após com vaquinha virtual para custear as passagens.

"O que os alunos mais gostam é a oportunidade de investigar. O que eu trazia para a sala de aula? Eram desafios: vamos investigar isso aqui? E deixava usar a criatividade e a imaginação desde que cumprissem algumas regras. A teoria que eles desenvolvessem precisaria imaginar uma resposta, criar modelos e explicações", relata.

Para criar esse ambiente é preciso de formação adequada na área. O Plano Nacional de Educação (PNE) havia estipulado que, até 2015, 100% dos professores tivessem se graduado no campo em que dessem aula.

Mas a meta ainda não foi atingida. Em 2019, somente 63,3% dos professores tinham alguma graduação na área em que davam aula.

"É preciso vivência no campo científico, vivência destes valores. Isso demora, é complicado, não é valorizado, e não é divulgado", reflete Barcellos.

Para reforçar o contato com a área, há um programa federal que oferece um curso ("Ciência É Dez") que tem atualmente 3.579 professores do 5º ao 9º ano do ensino fundamental, com aulas a distância.

Pandemia

O projeto de física de Barcellos estava indo bem até que veio a pandemia.

"Tivemos que abandonar a percepção do ensino integral de ciência. Porque tudo se baseia em uma ideia simples: é preciso experimentar e no on-line é impossível fazer o método de investigação com certo rigor", relata.

Ele relata que a escola em que dá aula se adaptou rapidamente ao ensino remoto. Mas, apesar de suprir as questões técnicas para a educação a distância, Barcellos diz que sente falta do contato com os alunos.

"Rapidamente nos organizamos e adaptamos o currículo. Mas a falta de convívio social e de um ambiente que inspire a estudar prejudica demais a aprendizagem dos alunos", afirma.

"Vejo muitas possibilidades. Acredito que, com a volta do presencial, o 'know how' de gravar vídeo e de se expor na internet vai ficar como experiência", aposta. "Tenho esperanças de que o ensino híbrido seja uma das soluções possíveis."

Ainda assim, destaca Barcellos, os índices de aprendizagem do Brasil não vão melhorar sozinhos. "Se tiver espaço, equipamento e não souber o que fazer com isso, a educação não vai melhorar", relata.


Fonte: G1


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