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31/01/2020 09:25
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Em Portugal, gaúcho defende tese vestido de Pabllo Vittar e tira maior nota
Recebeu a maior nota já atribuída a um mestrando do curso de comunicação, arte e cultura da universidade
Jornalista gaúcho usa body de Pabllo Vittar no clipe "Então Vai" na defesa de sua tese em Portugal / Foto: Arquivo Pessoal

 Ao defender no último dia 25 sua tese de mestrado na Universidade do Minho, em Braga, norte de Portugal, o jornalista gaúcho Danilo Pedrazza apresentou uma espécie de cosplay da cantora Pabllo Vittar que lhe rendeu a nota máxima. Em plena dissertação oral, Danilo passou a tirar as peças da roupa que estava usando, inclusive a touca que lhe cobria a cabeça, até ficar apenas com o famigerado modelo de body que a cantora usa no clipe "Então Vai".

Encantadas, as três senhoras que compunham a banca examinadora avaliaram o estudo intitulado "A Sua Voz Não Está Mais Escondida: Representações Artísticas e Política da Drag-Queen Pabllo Vittar na Mídia" com a maior nota já atribuída a um mestrando do curso de comunicação, arte e cultura da universidade. Deram 19, em uma escala de 1 a 20.

"Minha história com a Pabllo é curiosa", diz Danilo. "Eu já tinha assistido ao clipe 'Open Bar', no final de 2015, e achado interessante, mas foi em 2017, quando ela lançou 'Todo dia' ('Eu não espero o carnaval chegar para ser vadia, sou todo dia, sou todo o dia'), que eu vi o quanto me encaixava direitinho na letra. Eu tinha conseguido emagrecer 45 quilos, pela primeira vez me sentia bem comigo mesmo depois de passar a vida sofrendo com gordofobia e homofobia."

Nascido em Santo Ângelo, cidade de 80 mil habitantes a cerca de 400 km de Porto Alegre, Danilo Pedrazza é filho de um político e de uma professora que se separaram quando ele tinha 6 anos. Pouco antes, a família tinha migrado para a capital, onde seu pai havia conseguido uma colocação na assembleia legislativa do estado. "Eu e minha irmã fomos criados pela minha mãe e meus avós. Meu avô, que morreu em 2010 aos 103 anos, era minha vida e maior inspiração masculina", afirma. Aos 25 anos, Danilo passou no mestrado em Portugal.

Dramático, intenso, hiperativo, ele conta aos atropelos que viveu experiências profundas e transformadoras. Diz logo de saída que é epilético e tentou se matar - mas logo esclarece que uma coisa não esteja associada à outra. A epilepsia se manifestou quando ele tinha seis meses de vida, e as crises voltaram a acontecer quando ele estava com 23. Com receio de sofrer convulsões durante o mestrado, Danilo procurou um médico do Instituto do Cérebro da PUC de Porto Alegre, que o submeteu a uma cirurgia que teve, até agora, resultados satisfatórios. "Tenho uma cicatriz de quase 20 centímetros na cabeça, em forma de 'C', de coragem."

A tentativa de suicídio foi em Portugal, em 2018, quando descobriu que haviam roubado seu computador e um pendrive com todo o material da pesquisa de sua tese. "Eu não conseguia comer, dormir, só chorava o dia inteiro. Pensava em acabar com minha vida, em me jogar da ponte aqui do Porto", lembra ele, referindo-se à cidade vizinha a Braga, onde mora. Chegou a ir à ponte, mas foi salvo por uma "melhor amiga" que lhe emprestou dinheiro para comprar um novo computador. "Com o tempo, recuperei parte do trabalho em e-mails que tinha mandado para a orientadora."

Abaixo, os melhores trechos da entrevista:

Notícias — Como teve a ideia da performance?

Danilo Pedrazza — Quando soube que o body do clipe da Pabllo seria vendido na C&A, pedi a minha irmã que comprasse um pela internet. Então, comecei a planejar a apresentação. Iniciaria a defesa da tese vestido de homem, e terminaria de drag. Eu não sou drag, mas admiro tanto, e fazer essa dissertação me fez evoluir tanto, que só posso agradecer a todas que me ajudaram ao longo dessa jornada. Até hoje, nunca tirei a etiqueta do body porque amo ver o nome da Pabllo ali. Desde que eu o comprei, fica 24 horas por dia pendurado na janela do meu quarto, como uma bandeira LGBTQ+ para todos na rua olharem.

Notícias — Você ensaiou muito?

Danilo — Nunca com toda a roupa pronta. Comecei a defesa de terno, camisa, calça, sapato e touca, e acabei com apenas o body da Pabllo e quatro meia calças. Precisei organizar muitas coisas, comprar camisa e calça grandes para poder tirar fácil, arrumar a touca para esconder a peruca, depilar costas, axilas e sobrancelhas com cera, e o resto do corpo com gilete.

Notícias — Você esperava ser tão bem avaliado?

Danilo — Não. Os portugueses acham que ninguém merece tirar nota máxima, e essa é uma cultura que se perpetua. Minha orientadora mesmo já havia me falado: "Tu sabes que não vais tirar 19 ou 20". Mas acho que as bichas trabalham sempre com o impossível, que elas sempre fazem ficar possível, e é disso que mais me orgulho.

Notícias — Acha que a performance contou muito na nota final?

Danilo — A performance fechou um ciclo em todo o processo, mas o fator mais importante para a boa avaliação foi a parte escrita. Acredito que tenha feito uma abordagem diferente do assunto "drag-queen". A pesquisa acadêmica em geral fica restrita à discussão de gênero, em detrimento da manifestação artística. Eu explorei teoria queer, homossexualidade e o fenômeno drag no Brasil, mídia e jornalismo, representações sociais, celebridade e cultura pop, mas também levantei a história da arte drag queen desde o início da humanidade.

Notícias — Como surgiu a oportunidade de fazer o mestrado?

Danilo — Eu estava perdido no Brasil, sem conseguir emprego, sem saber o que fazer. Até que encontrei uma página falando desse mestrado, era dezembro de 2016, não havia vagas abertas, mas me inscrevi para receber informações. Em abril de 2017, recebi um e-mail e comecei a entrar no processo seletivo em segredo, ninguém sabia.

Notícias — Você mora em Braga mesmo?

Danilo — Não! Graças a deus! Hahahaha. Quando fui aprovado no mestrado, já tinha decidido que iria morar no Porto. Sou uma bicha de cidade grande. Amo o Porto, acho uma cidade incrível e que conquistou meu coração.

Notícias — Você conhece a Pabllo pessoalmente?

Danilo — Em dezembro de 2018, a Pabllo confirmou o show que faria em abril de 2019 em Lisboa. Comprei meu ingresso no primeiro dia e comecei a tentar ver como conheceria ela. Tentei tudo, assessoria, equipe, amigos, atores. Não consegui. Porém, como jornalista e stalker, tentei descobrir o hotel em que ela se hospedaria, e por um stories do empresário dela descobri. Quando cheguei a Lisboa para assistir ao show, vindo do Porto, deixei minhas coisas no hostel e fui para a frente do hotel da Pabllo. Cheguei por volta das 15h, decidido a ficar até a meia noite. Às16h e pouco, avistei a Pabllo no saguão, dando entrevista, e fiz sinal para ela ir lá fora depois. Ela fez que sim com a cabeça e eu fiquei esperando. Quando ela apareceu, eu estava muito nervoso, tremendo, precisava conseguir a foto vestindo o body. Ela e o empresário me ajudaram a entrar no hotel e vestir o body. Esperei enquanto ela retocava a maquiagem. Tiramos a foto, e eu pedi para ela gravar uma mensagem para eu mostrar na banca. Ela disse que sim, pegou meu celular e ela mesmo gravou o vídeo. Fui embora numa felicidade imensurável, eu tinha uma foto maravilhosa, mas não podia postar ainda, só quando soubesse a nota no mestrado. Aquela foto esperou 9 meses para ser postada, mas valeu a pena.

Notícias — Nesse pouco contato, ela correspondeu a suas expectativas?

Sim. Sempre tive uma imagem dela como alguém muito gente como a gente, ou melhor, bicha como a bicha, e estava totalmente certo. Depois do show em Lisboa, teve o show em Aveiro, dia 27 de abril. Eu novamente fui no show, descobri o hotel, mas não consegui falar com ela. Então, descobri que ela ia ao Porto para pegar o avião e voltar a Lisboa. Peguei carona com pessoas que conheci na frente do hotel e fui para o aeroporto. A meta era uma foto eu não estando com o body (minha mãe queria) hahaahaha. Esperei um tempo lá, e as 7 da manhã ela chegou, virada depois do show, mas foi uma querida, tirou fotos de novo e quando me despedi dela ouvi: arrasa nessa dissertação. Isso eu nunca vou esquecer.

Notícias — Qual a relevância da Pabllo Vittar em Portugal?

Danilo — A Pabllo é muito conhecida aqui. Todos os LGBTQI+ que eu conheço aqui adoram. Quando fui ao show em Lisboa, fiquei impressionado com a quantidade de portugueses na fila. Cheguei lá eram por volta de 10 da manhã, havia umas 30 pessoas na minha frente, a grande maioria era português.

Você já sofreu homofobia em Portugal?

Danilo — Sim, os portugueses são extremamente homofóbicos. Eu cheguei a me demitir de um emprego, quando o meu patrão me disse que eu estava "trabalhando com todo meu lado feminino, igual a uma barata tonta".

Você se considera desinibido, ou foi um esforço fazer a performance?

Danilo — Sou totalmente desinibido. Mas em relação à performance, não sei explicar, eu só sabia que tinha que fazer. Minha mãe ficava com medo, falando "será que vão gostar?" "e se tu sofrer homofobia?" "será que não é perigoso?". Eu só dizia: fica tranquila que vai dar tudo certo. Fui lá e fiz. Quando acabou, voltando para casa, eu fiquei pensando no que tinha feito, sem realizar direito. Pensei: "Daqui a alguns anos eu não vou acreditar que fiz isso".

Que tipo de programa você gostava de assistir na infância?

Danilo — Sempre preferi filmes e personagens femininas. Por exemplo, até hoje, não escuto cantores homens heterossexuais, prefiro vozes femininas ou de bichas, como a Pabllo. Para mim, esses produtos vão muito além de entretenimento, têm a ver com empoderamento e com nossas posições políticas na vida.

Você tem namorado?

Namorei apenas uma vez, quando tinha 19 anos. Estou solteiro agora.

Além da Pabllo, você ouve o quê?

Danilo — Meu TCC foi sobre a Beyoncé. Falei do feminismo, que ela abordou no álbum de 2013. A Beyoncé é uma das minhas maiores inspirações. Gosto muito de Hilary Duff (por isso meu instagram é dan_duff), porque sou um fã do Disney Channel das antigas. Escuto muito o pop.

Você planeja ser professor, cantor, dançarino? Que profissão pretende seguir?

Danilo — Eu comecei o mestrado porque estava perdido, sem saber o que fazer. Eu acabo o mestrado tendo certeza que irei continuar na área acadêmica. Não sei se em Portugal, por que sinto que meu ciclo aqui já fechou. Como também sou italiano, ficar e fazer doutorado na Europa é o que me chama mais atenção, sinto que preciso continuar na pesquisa. Para o futuro, ser professor e seguir o legado que aprendi com minha mãe e minhas professoras durante a vida seria uma honra.

Fonte: UOL


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